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Golpe da recuperação: quem perdeu dinheiro num golpe vira alvo do segundo

Semanas depois de um golpe, chega a oferta para recuperar o dinheiro, e quem liga já sabe quanto a vítima perdeu. Em Nova York, era o mesmo grupo. No Brasil, a engrenagem é a do golpe do falso advogado: pagar antes para liberar um dinheiro que seria seu. Nenhum órgão público cobra para devolver valor, e empresa privada não tem poder de congelar nem de apreender nada.

Robert F.
Golpe da recuperação: quem perdeu dinheiro num golpe vira alvo do segundo
Ouvir a matéria· voz sintética10:07

Leitura por voz gerada. O texto é escrito e revisado por gente.

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Quem perde dinheiro num golpe costuma receber, semanas depois, uma proposta para recuperá-lo. Em Nova York, a promotoria do Brooklyn mostrou de onde ela pode vir. Em 14 de outubro, a unidade de moedas virtuais da promotoria anunciou, com o FBI, que derrubou 241 domínios e 112 servidores de um esquema de falso investimento em criptomoedas voltado a falantes de russo, com grande concentração de vítimas no próprio Brooklyn. Nos dados recuperados dos servidores, os investigadores acharam uma segunda operação: os mesmos golpistas procuravam as vítimas "algumas semanas depois do engano inicial", com a promessa de recuperar o que tinha sido levado.

O primeiro golpe seguia um roteiro conhecido no Brasil. Um anúncio no Facebook levava a um "consultor de investimentos" que ligava, ajudava a abrir conta numa plataforma de criptomoedas e orientava a vítima a comprar e enviar moedas para endereços ligados à plataforma. Semanas ou meses depois, na hora do saque, a conta travava ou aparecia a cobrança de taxas e impostos adicionais. A promotoria estima perdas de dezenas de milhões de dólares, com vítimas que perderam as economias de uma vida, e diz ter apreendido até agora cerca de US$ 300 mil. O comunicado não fala em prisões: descreve mandados de busca e a derrubada da infraestrutura, que, segundo a promotoria, tira dos golpistas a capacidade de criar sites novos e de voltar a procurar vítimas antigas.

Quem liga já sabe o que você perdeu

O detalhe do Brooklyn explica por que o segundo golpe funciona. Quem procura a vítima sabe quanto ela perdeu, em que plataforma e quando, porque tem os dados do primeiro golpe ou porque é o mesmo grupo. A FTC, agência americana de defesa do consumidor, descreve listas compradas, vendidas e trocadas entre golpistas, com nome, endereço, telefone, o tipo de golpe que enganou a pessoa e quanto ela pagou. Quem já caiu uma vez é tratado como alvo bom para cair de novo. O contato chega com informação que parece privilegiada, e é por isso que convence.

O FBI alerta para o padrão desde 2023. Em agosto daquele ano, descreveu empresas que se apresentam como especialistas em rastrear criptomoedas, cobram adiantado e somem, ou entregam um relatório de rastreamento incompleto ou errado e pedem mais dinheiro para a "recuperação". Em junho de 2024, o alerta foi sobre falsos escritórios de advocacia, que dizem representar a vítima contra o golpista ou junto a um órgão de governo e pedem "impostos atrasados e outras taxas" para liberar o dinheiro. Entre fevereiro de 2023 e fevereiro de 2024, vítimas que caíram nesse segundo golpe relataram ao FBI mais de US$ 9,9 milhões em perdas. Em agosto de 2025, uma atualização acrescentou papel timbrado falso, reguladores inventados e grupos de WhatsApp que cobram "taxa bancária" para liberar o saque.

No relatório anual do centro de queixas de crimes na internet do FBI, o IC3, o golpe da recuperação somou 10.516 queixas em 2025, 2.529 delas de pessoas com 60 anos ou mais. O relatório também traz um valor em dólares, mas avisa que ele pode incluir o que a vítima perdeu no golpe anterior, aquele que motivou o contato. Por isso o valor não entra aqui.

No Brasil, a engrenagem tem outro nome

Não localizamos alerta de órgão público brasileiro dedicado ao golpe da recuperação com esse nome. O que existe, e em quantidade, é o alerta sobre a mesma engrenagem: pagar adiantado para liberar um dinheiro que a vítima acredita ser dela.

A Comissão de Valores Mobiliários descreve quem oferece "recuperar" um investimento esquecido mediante pagamento antecipado de "imposto de renda", "corretagem" ou até de uma "taxa cobrada pela CVM", e manda desconfiar da exigência de novos pagamentos, "a qualquer título, para liberar saldos retidos". É o mesmo que acontece dentro das plataformas falsas de investimento, na hora do saque. A CVM avisa ainda que não tem competência legal para determinar a devolução de ativos ou o ressarcimento de prejuízos: quem liga em nome dela prometendo devolver dinheiro está mentindo sobre o que a própria autarquia pode fazer.

O Banco Central diz, sobre o sistema Valores a Receber, que o serviço é gratuito, que não se paga nada para ter acesso aos valores e que o BC não envia links nem entra em contato com ninguém para tratar do assunto.

O Judiciário convive com a versão mais disseminada do mecanismo, o golpe do falso advogado. A Ouvidoria do Conselho Nacional de Justiça registrou 88 denúncias desde maio de 2025 de golpistas que, se passando por advogados, "prometem a liberação de indenizações ou valores judiciais mediante pagamento antecipado". A Justiça do Trabalho lembra que, em processo judicial, os valores são liberados "sem a necessidade de qualquer pagamento prévio ou adicional". Em 8 de outubro, a Polícia Civil do Paraná prendeu dez pessoas no Ceará num caso que começou com o prejuízo de cerca de R$ 2 milhões de uma idosa de Curitiba, abordada por criminosos que se passaram pelo advogado dela e por representantes de instituições públicas e financeiras. "Só que é necessário pagar para levantar esse dinheiro, e as vítimas acabam fazendo os pagamentos", explicou o delegado.

A diferença entre os dois golpes está só no crédito inventado. No falso advogado, é uma indenização ou uma causa ganha. No golpe da recuperação, é o próprio dinheiro que a vítima já perdeu, o que torna a oferta ainda mais difícil de recusar.

O que ninguém de verdade faz

Nenhum órgão público cobra para devolver dinheiro, e a FTC resume a regra: órgãos de governo e organizações legítimas nunca pedem dinheiro para ajudar alguém a conseguir um reembolso. A recuperação de valor perdido em golpe, quando acontece, passa por um destes caminhos, e nenhum deles começa com alguém ligando para cobrar uma taxa.

No Pix, é o banco da vítima que aciona o Mecanismo Especial de Devolução, o MED, e a devolução depende de haver saldo na conta que recebeu o dinheiro. Explicamos por que o dinheiro muitas vezes não volta, e o que fazer quando não volta.

Em criptomoedas, o que trava o dinheiro é o congelamento pelo emissor da moeda ou pela corretora, e quem pede é autoridade ou juiz. O FBI escreve que empresas privadas de recuperação não podem emitir ordem de apreensão de criptomoedas, e que corretoras só congelam contas por processo interno ou em resposta a ordem legal. Mostramos o que o congelamento de USDT alcança, e o que ele não devolve.

Fora disso, o caminho é o processo judicial, com um advogado que a própria vítima escolheu e contratou, e cuja inscrição ela pode conferir na OAB.

Os sinais

Quem oferece recuperar dinheiro e é golpe costuma reunir vários destes traços. Procurou você, e não o contrário. Já sabe detalhes do golpe que você sofreu. Diz falar em nome de banco, Banco Central, CVM, polícia, tribunal ou de um escritório de advocacia que você não contratou. Garante o resultado. Cobra antes, sob o nome de taxa, imposto, custas, honorário ou caução. Pede o pagamento por Pix para pessoa física, em criptomoeda ou em cartão-presente. E tem pressa.

Se um contato assim chegou, não pague e não envie documento nem dado bancário. Confira a pessoa ou o órgão por um canal que você mesmo encontrou, e não pelo número ou pelo link que veio na mensagem. E leve o contato à polícia, junto com a ocorrência do primeiro golpe: o FBI pede que as vítimas informem também as conversas com quem ofereceu recuperação, e no Brasil a lógica é a mesma, porque quem liga pode ser o mesmo grupo.

Um aviso sobre nós

A CyberX atende vítimas de golpe, e por isso este bloco vem declarado e separado. A consulta de carteira cripto é gratuita e sem cadastro: mostra para onde o dinheiro foi, e o relatório prévio chega por e-mail, com protocolo e hash que qualquer pessoa confere em cyberx.to/verificar. Quando o caso pede investigação, a CyberX responde com escopo e proposta. A CyberX não recupera valores, não congela carteira, não é autoridade e não garante resultado. O que ela entrega é documentação para quem pode agir: a autoridade, o juiz, o advogado da vítima. Desconfie de quem prometer mais do que isso, inclusive de quem usar o nosso nome.

Em uma linha

Quem perdeu dinheiro num golpe não precisa pagar ninguém para tentar recuperá-lo, e quem cobra antes de fazer qualquer coisa costuma ser o golpe seguinte.

Fontes

Sobre o autor

Robert F.

Robert F. é fundador da CyberX, operação de inteligência digital aplicada à investigação, com base no Brasil e alcance sem fronteiras.

Trabalha com OSINT, rastreamento on-chain e antifraude para áreas jurídicas, compliance corporativo, antifraude bancário e autoridades públicas.

Nas publicações da CyberX escrevemos sobre o que pode ser dito em público — tipologias de fraude e golpe, ameaça digital, rastreamento on-chain, regulação e o que distingue investigação de consulta. Nunca sobre caso que atendemos, cliente, matéria sob segredo de justiça, ou detalhe operacional que comprometa uma investigação em curso — a nossa ou a de terceiros. Caso de terceiro entra pelo ato oficial público, e pelo que ele ensina, não pelo que expôs.

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